A falta radical da Psicose



Psicose não é sinônimo de loucura, hoje cada vez mais encontramos neuróticos exuberantes e psicóticos discretos.


Os neuróticos também podem ter seus momentos de “loucura” e os psicóticos seus momentos “lúcidos”.


É evidente que toda forma de classificação engloba o efeito ornitorrinco: um acontecimento clínico que vai dificultar qualquer forma de classificação. Ou seja, nem tudo é tão pau/pedra, preto no branco. Deve-se elaborar cada caso com cautela.


Mas, mesmo assim, é evidente que essa distinção de neurose ou psicose é importante para a direção do tratamento clínico.


Não é algo que serve para enquadrar o sujeito, mas sim saber sobre como manejar seu tratamento. Deve-se pensar, portanto, para além do aspecto fenomenológico.


Mas como fazer essa distinção?


Tem um elemento fino, um eixo condutor preciso na Psicose: o que chamamos de Forclusão: exclusão total/ ausência de inscrição. Ou seja, tem algo na Psicose que faz falta radicalmente. Então alguma coisa falha, mas que não pode ser vista, sendo, pois, como um buraco negro: não se vê diretamente mas se vê seus efeitos. Então, não é possível ver a falta radical do psicótico, e sim verificar os efeitos que provoca.


O que vai fazer falta na psicose é algo da linguagem. A linguagem é composta por uma dupla superfície: significante e significado.


Pode-se pensar que o que falta na psicose é o ponto de capitonê, ou seja, uma ponte que faz com que essas duas superfícies se liguem uma à outra. Falta, portanto, um ponto de amarração. Devido à isso, o inconsciente do psicótico é à “Céu Aberto”, “solto”.


O principal efeito dessa ausência de amarração, dessa falta radical, é a autonomia da linguagem: tem algo sobre o Outro da linguagem que se impõe sobre ele. Sendo assim, muitas vezes as coisas vão se impor sobre ele muito mais do que surgir dele: “a voz de Deus até mim”, “fulano que olha pra mim de uma forma estranha”, “ele que me persegue”, entre outras formas menos explícitas.


Há, então, um funcionamento peculiar da linguagem nos sujeitos psicóticos.


É por aqui, portanto, que o trabalho na clínica da psicose se passa. É uma linha fina, um caminho por onde ele se enlouquece, como também por onde ele se estabiliza.


A clínica na psicose precisa ser, então, INVENTIVA. Deve-se construir algo a partir dos cacos e restos.


Fica essa reflexão para se pensar a importância da dimensão do inconsciente para se pensar na direção do tratamento dos sujeitos. Nem tudo é o que parece ser!


Deve-se pensar cada caso com muito cuidado, com muito estudo e cada manejo clínico deve ser elaborado minuciosamente.


Somos sujeitos muito mais complexos do que imaginamos!


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©2020 por Clara Nicolato. Direitos Reservados.