Adolescência e o real da sexualidade

Atualizado: 1 de Ago de 2019



A adolescência pode ser pensada como um sintoma da puberdade.


Freud nos ensionou sobre a sexualidade polimorfa perversa dos primeiros anos da infância que, depois dessa experiência traumática, a criança entra em longo período de latência até o redespertar da sexualidade na puberdade.


A puberdade, então, desperta o sujeito da hibernação da latência sexual, que condena a um outro tipo de solidão: solidão compartilhada.


A adolescência se dá desde uma maturação sexual fisiológica que resulta em uma transformação pulsional, provocando uma crise que é essencialmente individual. Essa crise pode ser pensada como uma perturbação momentânea dos mecanismos de regulação, sem se configurar como algo patológico. Nessa fase, é como se o sujeito houvesse um medo de seu corpo, sem saber como se servir dele, o que provoca angústia por um receio de falhar em relação ao que é proibido: o incesto.


O final da adolescência pode ser pensado quando o sujeito alcança uma organização sexual definida, ou, uma identidade sexual irreversível.


A questão central da adolescência é, portanto, a da identidade sexual.


É um tempo que se situa numa faixa etária em que o adolescente, enquanto sujeito do inconsciente, se encontra com um real impossível de ser suportado: a impossibilidade da relação sexual, já que Lacan nos ensina que a relação sexual é impossível de exisitir: o ato sexual existe, mas o encontro com o objeto que causa o desejo não faz existir a relação sexual, já que dois corpos jamais podem fazer existir um só.


Então, o adolescente, sob a presença de mudanças no corpo, irrompe com o real da inexistência da relação sexual.


Essa inexistência da relação sexual também pode ser pensada como o encontro com o real do sexo, sendo o real aquilo que não pode ser simbolizado. Então o real do sexo é algo do qual não se tem palavras para falar, fazendo com que o sujeito utilize do ato.


Pode-se pensar, em vista disso, que nos adolescentes há uma tendência em agir. É um tempo, pois, que o sujeito também se depara com a responsabilidade do ato. Desencadear um conflito a partir do aparecimento do real do sexo é algo, diante disso, que se torna próprio da adolescência.


Nesse contexto, o suicídio, enquanto passagem ao ato, pode surgir como uma resposta frente ao impossível de suportar o real do sexo, proporcionado ao sujeito uma saída de cena.

A clínica psicanalítica com adolescentes introduz questões para implicá-los nessa crise enquanto sujeitos, reforçando a posição de que isso não passa, isto é, de que esse momento de confrontação com o real do sexo vai se estender por toda a vida.


Para além de uma irrupção do real traumático da sexualidade, é uma época que pode levar à angústia, respostas sintomáticas, à busca pelo saber, pelo amor e pela construção ou afastamento dos laços socias.


Se trata de uma fase da vida, portanto, que é uma construção social.


A adolescência, além do mais, é um tempo de travessia das aparências, em que o sujeito abandona determinadas identificações imaginárias com os pais se configurando, portanto, como uma travessia do imaginário, relacionada ao falo. Essa travessia se dá diante de um real do gozo que é desconhecido pelo sujeito. Isto é, quando a puberdade chega, ela traz consigo as fantasias, que se inciam numa cena familiar para dar lugar, a medida de sua progressão, à outras relações do sujeito, funcionando como um desligamento da autoridade dos pais. A dificuldade do sujeito se dá, assim sendo, nos conflitos que essa separação dos pais propicia. Separação da qual o indivíduo se prepara para se individualizar sendo, também, um dos vetores que descreve a relação do sujeito com o Outro – da fala e da linguagem; Outro que fala do sujeito. A separação é, assim sendo, um momento oposto ao da alienação ao Outro, no entanto, o sujeito sempre é, de uma forma ou de outra, determinado pelo Outro, pois todo desejo é o desejo do Outro.

Mas essa separação ocorre, como Freud pontua, desde o período de latência, se configurando em uma incorporação dos pais, isto é, de uma identificação com eles.


A adolescência pode ser pensada, dentro da orientação lacaniana, como uma revolta contra o Outro da Lei, havendo uma questão relacionada ao Pai enquanto função simbólica que é crucial em sua tentativa de dar conta de um gozo que o invade. Entretanto, o Pai sempre vai estar aquém das questões do sujeito, sendo culpado imaginariamente por ele.


Sendo assim, a adolescência é um período marcado por inúmeras alterações não só fisiológicas, como também subjetivas, afetando a relação com os pais, com o social e com o próprio corpo.


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