Causa do desejo e relacionado ao olhar: objeto a



O objeto pequeno a é um dos termos psicanalíticos elaborados por Lacan e é de extrema importância para a compreensão de inúmeros fatores.


O objeto “a” é a causa do desejo, sendo o verdadeiro parceiro da sexualidade. Veja, ele não é o objeto de desejo, mas é ele que o torna desejante. O Outro do amor, a partir do objeto a, se transforma em um pequeno outro, seu semelhante, sendo reduzido à um objeto – algo do qual a pulsão se satisfaz.


Qualquer objeto, portanto, que cause o desejo, satisfaça a pulsão ou que provoque angústia, pode fazer essa função de objeto a: aquele que afeta o sujeito.


É, contudo, um objeto que não é da ordem do significante, sendo sem consistência, não podendo ser visto, nomeado e nem falado. Ele pertence, assim sendo, à ordem do real e se equivale à um objeto perdido, sendo a sua falta estruturante do inconsciente.


No Seminário 11, Lacan vai descrever o objeto a da seguinte maneira:


“um objeto privilegiado surgido de alguma separação primitiva, de alguma automutilação induzida pela aproximação mesma do real”.

Há uma manifestação, portanto, de gozo (um mais além do prazer que esabarra no sofrimento) nesse campo.


O objeto a, para além da causa do desejo, é também um objeto mais-de-gozar e, nesse último caso, corresponde ao objeto da angústia.


O objeto a possui quatro modalidades, sendo uma delas relativa à pulsão escópica, em que se encontra o olhar: objeto efêmero, evanescente, que não se apreende e que emerge quando dois olhares se encontram e o sujeito se sente simultaneamente olhado e sendo olhado.


O olhar, colocado enquanto objeto a, é, portanto, inapreensível, mascarado na ilusão da consciência. Para Lacan, o olhar não se situa simplesmente no nível dos olhos, já que pode não aparecer ou estar mascarado, sendo, portanto, diferente do olho; olho que não se reduz à um orgão da visão, isto é, o campo visual não se reduz ao ato da visão, sendo também fonte de pulsão: mais propriamente chamada de pulsão escópica desde Freud.


O olhar é algo que não só se distingue do olho, como também do ver. O olhar é um “dar-a-ver” e, com isso, a percepção não está em nós, mas sobre os objetos.


Porém, mesmo assim, nos percebemos num mundo que parece depender da percepção do “vejo-me ver-me”, que parece dizer que as representações nos pertencem.


Assim sendo, o objeto olhar se relaciona ao Outro, como um desejo para o Outro, ou até fazer-ver para pelo Outro, tal como se exibe para o Outro.


O objetivo final da pulsão escópica é, portanto, ser olhado: trata-se de um desejo para o Outro, que convoca, portanto, o seu olhar.

Importante essa reflexão para pensar que muitas coisas aparentemente simples, tem todo um lugar e uma construção inconscientes sendo, na verdade, muito complexas.


A gente olha no inconsciente e, então, só iluminando o que está lá que será possível realmente ver para além das aparências.

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