Ciência alheia à falta dos sujeitos

Atualizado: 1 de Ago de 2019

É evidente que os discursos que marcam a contemporaneidade tem efeitos profundos sobre a dinâmica social e sobre o psiquismo dos indivíduos.


No século XXI pode-se dizer que houve um maior contato dos sujeitos com os produtos e os saberes científicos. O discurso da ciência, com isso, passou a afetar e marcar as relações interpessoais de forma significativa.


O discurso científico não coloca espaço para o furo e nem para a falha a partir de um sonho de progresso e anseio por desenvolvimento, que buscará tudo saber, tudo resolver e tudo responder: tudo é possível. Oferece, desse modo, infinitas possibilidaes relacionadas à uma certa permissividade e à falta de limites. Porém, os furos do saber que a ciência busca preencher são impossíveis de serem preenchidos, já que o sujeito é falta-a-ser: temos uma falta fundamental e estruturante que é impossível de ser preenchida.


Ou seja, há uma falta, um furo no sujeito, que a ciência, alheia à isso, busca o tempo todo tamponar. Além de alheia à falta-a-ser do sujeito, a ciência também é, então, alheia ao furo no saber.





Sendo assim, o mundo contemporâneo é sustentado pelo discurso científico de tudo saber, resultando numa suspensão dos limites do gozo com o tudo pode. Se não limitar o gozo, resulta-se em pulsão de morte.


Logo, a sociedade é organizada no plano do excesso de tudo e de overdose de tudo. Há, então, uma lógica do excesso, oposta à da falta, que Lacan chamou de objeto-mais-de-gozar, que vai anular o limite ao gozo, ocasionando num gozo desregulado, que provocará vários tipos de overdose no campo da pulsão: compulsão às compras, ao consumo, à comida, à tecnologia, às drogas, entre outras coisas.


A ciência está, então, orientada por uma lógica de excesso.


A partir disso, vê-se, ainda, uma fusão entre o discurso científico e o capitalista, já que o interesse científico é orientado por um capital. E, inseridos na cultura de excesso, o vazio é preenchido por objetos de consumo, não deixando espaço para a falta.

Pode-se pensar, portanto, que o discurso científico procura dar respostas e o capitalista busca oferecer objetos para atender às demandas.


A edução, ciência, mídia, mercado, assim sendo, se colocam no lugar de dito na busca de tamponar o vazio do objeto inapreensível. Esse contexto traz consequências para a dos sujeitos, não havendo brecha para o não-dito.


Além disso, pode-se destacar que uma das formas de tratamento da ciência é de colocar algo que sobra ao corpo como a causa de adoecimento, podendo extrair e remover algo do corpo. O tormento do ser humano é o sentimento de que algo falta ou sobra ao seu corpo e, com isso, vai buscar algo fora do corpo para fazer um corpo. Entretanto, quando a ciência é articulada com a lógica do objeto a, que está na categoria da falta, vai buscar preencher e implantar algo ao corpo, através de procedimentos. A ciência, então, está sempre pronta para atender as intervenções no corpo que os sujeitos buscam na tentativa de preencher essa falta. Ou seja, pode-se pensar que o discurso científico tenta moldar um sujeito perfeito.


Nesse cenário, esse discurso também promove um excesso de nomeações de diganósticos, como TDAH e Depressão, categorizando as patologias do fracasso e oferecendo formas de saná-las com medicações. Com isso, há padrões dos quais os sujeitos devem se enquadrar, se não a ciência irá os classificar.


A partir dessa conjuntura, a pedagogia também irá se aproximar da lógica capitalista e científica, buscando oferecer respostas que atendam a demanda. Sendo assim, a criança também é colocada como sujeito e objeto de consumo através da mercantilização do ensino.

Por conseguinte, hoje a criança responde à demandas sem fim, sendo excluída quando não atinge os ideais estabelecidos. Precisa ser alguém, manter o capital e produzir, não havendo espaço para faltas.


Mas a falta é estruturante da subjetividade, e, sem ela, como se dá, portanto, a construção da subjetividade? Há uma lei frouxa, sem interdito e esse é um dos impasses do mundo contemporâneo.


Percebe-se, então, que a ciência e o capitalismo transformaram o mundo contemporâneo de maneira profunda e radical, afetando, através de seu discurso, as relações interpessoais e a vida. Pode-se dizer que a ciência impõe um debate sobre os modos de vida e de gozo sobre o corpo.


Percebe-se, ainda, que esses sujeitos constituídos pelo saber da ciência e sem um contraponto do saber do inconsciente, ficam à mercê das “modas” que os levam nas ondas do desconhecimento sobre si mesmos!!!

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