Música e Voz: demandar um Outro?

Atualizado: 28 de Out de 2019

A música e outras formas de arte têm um lugar muito importante na vida das pessoas. Por isso, resolvi escrever uma reflexão à respeito.


Como já dizia o filósofo Nietzsche em The Birth of Tragedy


"Sem a música, a vida seria um erro".

O filósofo observa como a música é um fenômeno extremamente significativo na vida das pessoas que possui dois princípios: apolínio e o dionísio. O primeiro está relacionado às imagens, ao belo, aos sonhos, ao perfeito; o segundo está relacionado a um descontrole, uma intoxicação, uma ilusão, um momento de Ecstasy.

Como se a música desse voz, através do apolínio, ao dionísio.


Na psicanálise, assim como o olhar é um objeto, a voz também o é. Ela é índice de um gozo, sendo fascinante ou confortante, como também um apelo e uma Demanda. A Demanda estaria relacionada com o obedecer: a palavra obediência do latim (ob-audire) parece depender do escutar: obedecer depender do escutar. Cantar nesse sentido, pode ser um semblante da voz que busca silenciar outras vozes e os instrumentos seriam pensados como uma metonímias da voz. Continua sendo uma forma, assim sendo, de demandar, apelar e invocar. Como se quiséssemos, a partir disso, fazer um Outro que não existe.



A voz causa o sujeito, fazendo-o falar no lugar do Outro, na tentativa de dar consistência à ele. A nossa própria voz, quando escutada em alguma gravação, parece, inclusive, vir de fora, sendo Outra voz, fazendo semblante desse Outro. Escutar a própria voz no espelho narcísico é como um eco que não pode falar por si mesmo. É, pois, o Outro que nos canta, o Outro que nos dedica a serenata. Trata-se de um desejo do Outro!


A música, nesse conjuntura, realiza o desejo de sermos escutados mais além das palavras. A música no seu namoro com o silêncio, o põe em evidência, e o preenche: é ambígua. A voz, como coloca Lacan, ressoa, portanto, no silêncio do Outro.


"A música não é a voz, porém vem no seu lugar. Ela nos dá a ilusão de que somos ouvidos pelo Outro. Se cantar é interpelar ao Outro, a música como resposta pode se erigir em espelho sonoro de um povo".

(Referência: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cogito/v9/n9a20.pdf)




Partindo dessas construções psicanalíticas acerca da música no campo do inconsciente, para além disso, pode-se dizer que ela é VIVÊNCIA. A música nos remete à momentos que vivemos, ela não diz apenas daquilo contido nela, mas do que vivenciamos quando a escutamos. Ela é, além de tudo, uma forma de fazer laço social, de construir grupos e de se encaixar neles. É uma maneira de, sem utilizar a palavra, dizer aonde pertencemos.


Fica essa reflexão para pensar que a música vai ter efeito particulares para cada um mas ela é, tendo tudo isso posto, uma forma de lidar com a voz, com a demanda e com o Outro! Possibilita a construção e, portanto, possui um efeito terapêutico e apaziguador para os sujeitos! Ela nos da a ilusão de que pertencemos em algum lugar e de que tem um Outro ali ao nosso encontro! .

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