Saúde Mental e COVID-19



TEXTO PREPARATÓRIO PARA LIVE:


Primeiramente, é importante pontuar que não escrevo em busca de ditar uma fórmula mágica para a saúde mental, pois ela não existe. Não estou aqui também para falar um passo a passo em como controlas as emoções ou sentir bem-estar...e sim provocar reflexões.


Até porque, como já venho falando em outros posts, o mal-estar é inerente: Freud já nos ensinou que para conviver em civilização existe um mal-estar fundamental, isto é, algo que está no fundamento do nosso ser, uma vez que temos que abrir mão de várias satisfações e prazeres para conviver com sociedade. O bem-estar já é uma ideia, portanto, ilusória: o mal-estar sempre faz parte da vida, o que podemos fazer é aprender a conviver com ele para que ele fique menos doloroso. Mas, é claro que tem momentos que o mal-estar se intensifica, como o que estamos vivendo agora: o real do coronavírus, da quarentena e do isolamento social. É um momento que podemos chamar de REAL o real é o que chamamos na psicanálise de imprevistos, daquilo que foge do nosso controle e sobre o qual não podemos mudar e sim mudar a nossa forma de lidar com ele, ou seja, não é sobre mudar a realidade, mas mudar a nossa maneira de lidar com ela: SABER-FAZER diante do real.


A vida inteiro seremos surpreendidos....no sentido de não termos nos preparado para lidar com aquilo. São momentos que nos afloram, normalmente, muita angústia.E isso se dá porque damos de cara com o nosso real: de que somos SERES FALTOSOS. O que é isso? Significa que não conseguimos dar conta de tudo e que tem algo que sempre nos falta.


A angústia normalmente é esse sentimento que nos deixa inquietos, com uma sensação de aperto no peito, que nos tira boas noites de sono, nos trás pesadelos, converte sintomas em nosso corpo, nos deixa fragilizados, ansiosos... enfim há várias formas de nomear a angústia! Mas há uma angústia fundamental: de que somos seres desamparados e precisamos do outro. Mas nada na vida tem-se garantias, tudo pode desmoronar...há um mal-estar!

Queremos segurar firme, encontrar firmeza nos nossos caminhos, mas escorre em nossas mãos! As angústias que sentimos em fazes de nossas vidas nos remetem, portanto, à tudo isso! Muitas vezes nos paralisa, nos atropela, nos desanima, nos cala... mas é importante que a gente fale sobre ela, simbolize ela e dê nome à ela!

O melhor remédio para a angústia é o desejo, pois é algo que te coloca em movimento na sua vida e na sua história! O que te faz querer continuar caminhando?

Mas o mundo de hoje é um mundo que tenta, mais do que nunca, fazer com que a falta não exista – ENCOBRIR A FALTA nos oferecendo diversas coisas para tamponar os nossos buracos: produtos de consumo, tecnologia e mídia social, metas incessantes para cumprir, comida, álcool e drogas, séries inacabáveis… entre outras inúmeras coisas que vai conectar com o sintoma de cada um. A questão é que tentam nos iludir o tempo inteiro de que podemos preencher os nossos vazios e acaba que a falta sempre aparece…e quando aparece o mundo estimula tamponá-la e isso vira um ciclo sem fim: um ciclo de tamponamento constante.


Ou seja, somos seres DESPREPARADOS para LIDAR COM AS NOSSAS FALTAS, quando a falta aparece mais bruscamente, podemos nos angustiar mais ainda…. e isso ocorre nesse momento em que nos percebemos faltosos, como o momento de agora: faltoso de convívio social, faltoso de saúde, faltoso de rotina, faltoso de trabalho para algumas pessoas e até de recursos financeiros para outras.


Mas a falta é o que nos CONSTITUI ENQUANTO SUJEITOS e ela é inclusive muito importante, pois ela nos coloca para DESEJAR…. Só desejamos porque algo está faltando e o desejo é aquilo que nos coloca em MOVIMENTO em nossa história. Precisamos localizar nossos desejos, desprendendo das demandas do Outro, das demandas da cultura e da sociedade e encontrar o nosso lugar, que é um lugar singular.


Lidar com frustrações, com os imprevistos, com a falta, com as falhas… enfim, faz parte da vida. Tem até uma fala da psicanalista Ana Suy que gosto muito, ela diz assim: "saúde mental não é sobre não criar experctativas, é sobre poder se frustrar e encontrar modos de continuar – de novo e mais uma vez".


Ou seja, na vida NUNCA SE HÁ GARANTIAS, garantia de amor, garantia de sucesso, garantia de sonhos, garantia daquilo que planejamos, garantia nas relações. A gente planeja, a gente vive, a gente corre atrás daquilo que a gente deseja… mas nunca se há garantias, ela é uma ilusão.


Acaba que aceitar isso e abraçar os imprevistos faz parte da vida. Não é se chocar com o real e nos paralisar diante dele, mas SABER-FAZER: ou seja: o que você pode fazer diante disso? É se reinventar dentro das possibilidades e ENCONTRAR SUAS PRÓPRIAS SOLUÇÕES: sendo que não se trata de soluções perfeitas, porque isso também é impossível, mas, como eu disse, as suas próprias soluções.

Se você teve algo da sua vida frustrado agora, ENCONTRE MODOS DE CONTINUAR… de novo e mais uma vez… retomando a frase. Porque lá na frente você pode, e muito provavelmente vai, ter que lidar com outras frustações. O imaginário que a gente coloca sobre a nossa vida, as relações, os planos… são muito diferentes da realidade. Não que você não vá conquistar o que você deseja, mas que o caminho até lá nunca vai ser exatamente igual o que você planejou. Isso é impossível! Então na vida É PRECISO SABER NOS REINVENTAR e nos adaptar diante do que aparece, diante do que é nos convocado.


E esse MOMENTO ATUAL, do real do coronavírus, da quarentena, do isolamento social, da vulnerabilidade, da paralização econômica, de preocupação, de intensificação do mal-estar e da angústia, nos convoca muitas coisas e, muito mais do que qualquer outra coisa, a nossa capacidade de SABER-FAZER DIANTE DO REAL: daquilo que é inesperado e indefinido.


Enfatizando o que eu falei: esse momento nos coloca para QUESTIONAR AS POSSÍVEIS GARANTIAS, nos colocando frente ao real de que não há garantia de saúde, de trabalho, garantia econômica, de bem-estarmas isso nunca houve! Porém, parece que tudo se intensifica mais ainda. O coronvírus exemplifica muito bem esse real que nos coloca de cara com o acaso.


É claro que tem muitas questões sociais aí em pauta, que todos devemos fazer a nossa parte. Todos temos um dever social de pensar em como poder ajudar, dentro daquilo que nos cabe. Mas também não tem como abraçarmos o mundo, somos seres humanos.. somos limitados…somos vulneráveis… e o que podemos fazer vai sempre depender de cada um. Trata-se de uma resposta SINGULAR, pois não existe uma resposta UNIVERSAL para isso.


Até para quem fala de isolamento social, por exemplo, quem vai se isolar é quem pode e quem consegue.  Pensa na favela: tem muitas pessoas lá que é quase impossível fazer o isolamento social, porque são muito desamparadas, precisam do dinheiro de todo dia para comer, precisa usar o banheiro do vizinho porque não tem em sua casa, precisa almoçar na casa do vizinho porque não tem comida, ou até que o filho tá doente mas a casa tem um cômodo só e não conseguem isolá-lo… enfim… estou dizendo isso apenas para ilustras que por mais que tenhamos uma ética humanitária do que deve ser feito nesse momento, a resposta frente à isso sempre dependerá da história de cada um e da singularidade de cada um.


Ou seja, NÃO HÁ REGRAS, como eu falei exite uma ética humana do que fazer nesse momento, mas como você vai lidar com isso, as soluções e as saídas que você encontrará, vai ser particular.


É precisa DAR TEMPO AO TEMPO, tempo a si mesmo e tempo ao outro e, ainda, tempo para a sua dificuldade de dar tempo às coisas. É evidente que esse momento exigirá de nós reinventar e re-significar: nossa rotina, nossos hábitos, nosso trabalho e nossos laços. Mas dê tempo para suas próprias reinvenções e viva um dia de cada vez.

Se REINVENTAR, enfatizando o que eu falei, não é ser super produtivo, encontrar soluções perfeitas ou ter a rotina ideal. Cuidado com as auto-exigências, elas são esmagadoras e podem nos paralisar mais ainda. Não é disso que eu estou falando, não é de um reinventar dessa ordem, mas sim do que você pode fazer, do que você dá conta, do que você consegue sustentar, entendendo aí suas limitações e suas faltas. Não tem como tudo-fazer, tudo-responder, até porque somos seres da falta, como venho enfatizando aqui, somos não-todo.


Não to aqui também para falar para você ficar atoa gozando da preguiça, não é isso também, mas acredito que é sempre importante o EQUILÍBIRO, pois o excesso, de uma forma ou de outra, ele é mortífero… o excesso nos leva à overdose de várias ordens. Então é preciso também fazer um MENOS aí.

Então encontre sua forma de se reinventar, de se recomeçar, de ser produtivo dentro do que é possível como também de saber desfrutar do tempo livre, e também até de saber dar tempo ao tempo e saber entregar também certas questões pro real e pro acaso, entendendo aí suas limitações e que é impossível dar conta de tudo.


E caso você esteja se sentindo muito angustiado e isso tudo esteja sendo algo da ordem do insuportável para você, procure por alguém especializado, por um profissional, para te ajudar… tem muitos psicólogos oferecendo atendimento online nesse momento e inclusive certos acolhimentos sociais e solidários para quem precisa.


Até porque muitas coisas que vivemos NOS REMETEM À MOMENTOS DA NOSSA HISTÓRIA. A gente costuma associar as coisas em nossa mente e muitas vezes sem nem perceber, então é muito importante um profissional para, através de uma escuta individualizada, guiar a pessoa para que ela possa se escutar e encontrar sua própria solução.


É preciso também SABER-FALAR e SABER-ELABORAR as nossas angústias. E, enfatizando o que já falei, o melhor remédio para a angústia é o desejo. Ou seja, dentre tantas paralizações nesse momento, encontre modos de continuar desejando…. Para que isso te dê inclusive forças para se reinventar nesse momento.


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