Sintoma e Tratamento

Atualizado: 31 de Jul de 2019




Lacan diz que o paciente não quer realmente mudar!


Ainda que, de início, o paciente afirme que quer se livrar de seus sintomas, ele está empenhado a não desestabilizar as coisas!


Essa é uma característica essencial dos sintomas: eles proporcionam algum tipo de satisfação, mesmo que não possa ser óbvia para o observador de fora (sendo algo inconsciente). Essa é uma maneira que o sujeito encontra de obter prazer e, sendo assim, porque alguém se esforçaria para abrir mão de uma satisfação?


As satisfaçōes que os sintomas proporcionam, entretanto, não são satisfações propriamente ditas, mas uma certa satisfação de sua própria insatisfação! Esse tipo de “prazer na dor” Lacan deu o nome de gozo.


A maioria das pessoas negam obter prazer ou satisfação com seus sintomas, porém o observador de fora costuma ser capaz de perceber que elas desfrutam esses sintomas, que “gozam” com eles. O paciente, inclusive, tem um desejo de não saber sobre essas coisas, de não saber nada - não quer saber nada sobre seus mecanismos neuróticos, nada sobre por que e de onde vêm seus sintomas.


Somente o desejo do analista faz o paciente superar esse “desejo de nada saber” sustentando o doloroso processo de formular novos conhecimentos.


Se as pessoas não querem realmente saber e nem mudar, o que faz procurarem tratamento?


Os sintomas proporcionam satisfações substitutas, modos de gozo, que nem sempre funcionam e nem sempre duram. As pessoas, portanto, tendem a procurar terapia quando a satisfação/gozo proporcionada por seus sintomas deixa de ser tão grande - “crise de gozo”. Os que chegam devido à essa crise de gozo, esperam que o analista/terapeuta resolva seu problema, isto é, que faça o sintoma funcionar como funcionava antes, recuperando seu gozo. Sendo assim, não pedem para serem livrados do sintoma, sua demanda é, na verdade, que o terapeuta restabeleça sua satisfação!


O que o terapeuta oferece, no começo, é uma satisfação substituta diferente: o estranho tipo de satisfação que vem da relação transferencial e da decifração do inconsciente - mas isso não é o que os pacientes pedem.


Na análise o terapeuta contorna as demandas do paciente, frustras-as, e, em última instância, tenta direcioná-lo para algo que nunca pediu.


Embora não seja possível ao terapeuta prometer a felicidade do paciente e nem sua cura, ele pode estender ao paciente, se necessário, a promessa de uma nova abordagem das coisas, uma nova maneira de lidar com as pessoas, um novo modo de funcionar no mundo.


REFERÊNCIA: livro “Introdução Clínica à Psicanálise Lacaniana” do Bruce Fink.

Importante essa reflexão para pensarmos a função da análise na vida dos sujeitos!


Não se atende a demanda do paciente, e sim constrói outra durante o processo chamada de demanda analítica.


Importante refletir também qual a função do sintoma em sua vida e como ele está ligado à coisas muito mais inconscientes do que imaginamos, sendo uma resposta à nossa vida como um todo. Não se trata um sintoma, e sim o sujeito em sua totalidade.

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