Traumas e os Significantes que nos Marcam

Atualizado: 31 de Jul de 2019

O que são traumas?




Quando fala-se em traumas na psicanálise, refere-se à traumas do inconsciente.


Isto é, são traumas normalmente esquecidos por nós ou não tão claros e que vão afetando nossa vida sem nos darmos conta.


No senso comum, tem-se a ideia de que o trauma vem de uma experiência trágica, mas não necessariamente.


Para a psicanálise, o trauma é particular para o sujeito e muitas vezes inclui aspectos aparentemente sutis ou banais.


Em muitos casos os traumas podem estar relacionados com significantes: palavras que nos marcam. Isto é, algo que dizem da gente, que a gente escuta e que causa um impacto no nosso inconsciente para além do impacto que é causado no momento em que ele é colocado: há um resto que fica no nosso inconsciente e vai nos afetar ao longo da vida. Esses significantes podem estar associados à forma que te nomeiam: "a reclamona", "a cara do pai", "reta", "gorda", "o inteligente", "preguiçosa", "chata", "cético", "fedorento", "o homem da casa"... enfim, entre outras inúmeras possibilidades. Esses significantes que escutamos, vão, assim sendo, nos marcar no inconsciente e sem que a gente perceba vai moldar algum de nossos comportamentos, atos, atitudes e até falas como uma forma de contrariá-los ou até de afirmá-los.


Pode até ser um significante que incomoda a pessoa conscientemente mas que inconscientemente ela o valida pois há um gozo retido ali: algum tipo de ganho secundário que é mais além do prazer, algo que o sujeito sofre mas que causa um prazer: como uma cosquinha que termina em chamas.


Ou seja, é muito mais complexo do que é notado aparentemente ou superficialmente.


Como consequência, sem que a pessoa tenha clareza, as palavras vão impactá-las e marcá-las, as moldando e podendo ser, inclusive, uma fonte de repetição: aquilo que vai acontecendo repetidamente sem se dar conta.


Por exemplo, uma pessoa que é marcada pelo signficante "a cara do pai" pode ter escolhido caminhos na vida em que o pai escolheu porque esse significante ficou marcado em seu inconsciente moldando suas escolhas na vida. Ou então, a pessoa pode ter seguido caminhos opostos ao que o pai escolheu como uma forma de negar esse significaste, e não necessariamente porque gosta desses caminhos escolhidos (conscientemente afirma para si que gosta, mas pode ser que inconscientemente não os deseje).


Normalmente são, ainda, vários significantes que nos atravessam e vão nos atravessar ao longo da vida.


Num processo de análise esses significantes vão aparecendo na fala dos sujeitos e vão poder ser trabalhados aos poucos.


Algo traumático e os significantes que traumatizam dizem de infinitas possibilidades e muito a ser elaborado, tudo vai depender de como o sujeito fala sobre isso.


Importante refletir sobre isso para, mais uma vez, nos darmos conta de que tem muito de nós mesmos que a gente não sabe ou que passa despercebido e são coisas que afetam nossa vida consideravelmente e que, quando temos a oportunidade e o desejo de trabalhá-los, nosso olhar e nossa maneira de viver se modifica e podemos abrir caminhos para realmente aquilo que desejamos, aliviando o sofrimento que resta de toda essa linguagem que nos atravessa.

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