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© 2019 por Clara Nicolato. Direitos Reservados.

 

Conheça a Psicanálise

01.

A Psicanálise e o Inconsciente

A psicanálise é uma área da saúde mental que trabalha com o inconsciente – é estudada na graduação em Psicologia, porém é uma teoria independente. Importante, primeiro, marcar a diferença entre Psicologia e Psicanálise: para se tornar psicólogo requer-se uma graduação em psicologia e existem várias abordagens teóricas diferentes e, inclusive, atuações para além da clínica e do consultório; já para se tornar Psicanalista é necessário uma formação sem fim (após uma graduação – não necessariamente de psicologia) que requer um tripé: sua própria análise, atendimentos supervisionados e aulas teóricas. O psicanalista se forma, principalmente, se engajando em sua própria análise. Além disso, é necessário um desejo de análise, isto é, não é só querer ser psicanalista, é mais que isso, é necessário um desejo de analisar um sujeito para que o processo ocorra. Também é necessária uma demanda de análise do paciente, isto é, não é só desabafar, é mais do que isso: é querer ressignificar e elaborar certos aspectos de sua vida. Importante entender que nem todo psicanalista é psicólogo e vice-versa. 

Mas o que é então a psicanálise? Trata-se de um prática clínica e um método científico que trabalha com o inconsciente. O inconsciente é, pois, o objeto de estudo da Psicanálise e foi descoberto por Freud quando era neurologista, pois percebia que muitas doenças não tinham causas biológicas justificáveis e sim psicológicas. O inconsciente é formado pela linguagem e tudo que é traumático para nós é mantido lá. Ou seja, o consciente recalca (manda de volta) pro inconsciente aquilo que é traumático para nós como uma forma de defesa, fazendo com que os conteúdos se tornem inacessíveis. Entretanto, o inconsciente quer sempre se manter consciente, então ele arruma meios para deixar que algo escape: nos sonhos, palavras ditas, atos falhos (atos que são falhos por um propósito), chistes (brincadeiras com fundo de verdade), etc. Existe até a famosa analogia do iceberg: a ponta dele é o consciente e tudo que está embaixo d'água é o inconsciente – só a ponta a perceptível, mas tem muito mais por detrás. Pode-se dizer que é uma verdade que carregamos em nós, mas que não temos condições de dizer. Ou seja, é o estranho que habita os espaços mais familiares em nós mesmos. É aquilo que fala em nós, que não conhecemos, mas que nos atravessa e nos faz tropeçar e mancar. É como uma pedra no meio do caminho, mas uma que não dá para tirar. Precisa-se aprender a lidar com a pedra e enxergá-la como uma parte do caminho!

 

O inconsciente, então, está por detrás de muitas coisas em nossa vida e passa despercebido por nós e, sem nos darmos conta, vai nos guiando e, assim, vamos nos perdendo de nós mesmos sem nem perceber. O trabalho do psicanalista é decifrar o inconsciente através de uma escuta qualificada que vai guiando o paciente nesse processo. É despertar o desejo do paciente em falar  – fazer falar –  para que se apresente, em sua fala, aquilo que nele fala. É escutar, portanto, para além da história do paciente, ouvindo aquilo que o atravessa, o prende, o pega e o toca.

 
02.

Como a Psicanálise atua?

A psicanálise é diferente de uma terapia convencional, pois trabalha-se com o inconsciente, com o não-dito, com o escondido, com aquilo que passa imperceptível. Isto é, a Psicanálise vai trabalhar com o inconsciente do paciente através da palavra, revelando aquilo que está por detrás dos seus sofrimentos, angústias, falas, sintomas, demandas, comportamentos, idealizações, frustrações, fantasias, desejos, repetições, etc, o tornando mais consciente de si mesmo através do bem-dizer e dos desembaraçamentos de sua mente. Sendo assim, num processo analítico o paciente fala, ressignifica e decifra aspectos de sua vida indo além de sintomas e do que está aparente. Ou seja, a psicanálise não trabalha com comportamentos e sintomas para modificá-los, pois tem-se o entendimento de que o sintoma é uma resposta à outras questões e que tirando o mesmo aparece outro no lugar. Com isso, busca-se trabalhar a pessoa no todo indo naquilo que está na "raiz do problema", entendendo seu contexto, sua história de vida, suas relações, suas particularidades e singularidade. O paciente torna-se, assim, consciente das repetições inconscientes que provoca em sua vida, aprendendo a conviver com o que é incurável e se reconciliando, dentro do possível, com sua própria história. O nosso trabalho consiste, portanto, em implicar o paciente em suas demandas e questões e ajudá-lo a decifrar certos aspectos de sua vida que passam despercebidos através de sua fala. É, além de tudo, um processo de auto conhecimento. Importante entender que as intervenções feitas nem sempre farão a pessoa se sentir bem, mas são intervenções que tem o objetivo de tornar a pessoa consciente de certas questões, de se implicar e se responsabilizar pelo o que ocorre em sua vida. Não é clínica do bem-estar, e sim do bem-dizer – o resultado do "bem-estar" vem com o tempo pois, trabalhando-se certas questões, por mais angustiante que possa ser, ajuda a pessoa a entender suas reações diante de suas vivências. Não é um processo fácil, mas ajuda a pessoa a ser mais ativa (e não passiva) do que ocorre em sua vida, sendo uma experiência revolucionária e transformadora de sua vida.

 
03.

Por que a Psicanálise?

Escolhi a psicanálise não só porque me apaixonei pela teoria, que se mostrou brilhantemente construída, indo além de sintomas e focando na "raiz do problema" (o inconsciente), mas também porque após começar minha própria análise, senti os efeitos em minha vida e vi o tanto que pode ser benéfico quando o analisante se engaja no processo. Sou apaixonada pela psicanálise e acredito que ela seja extremamente eficiente na saúde mental.

 

Por que fazer, então, análise? Como já dito, terapia não é o mesmo que análise, apenas a análise trabalha com aspectos inconscientes.  A psicanálise não faz milagres e nem promete nada, mas ela dá uma nova possibilidade para o paciente, uma nova maneira de enxergar o mundo e as coisas que acontecem, iluminando aquilo que estava ofuscado e que passava imperceptível. Enfatizo, portanto, que certos traumas que vivenciamos só teremos acesso através do inconsciente! Acaba que ignorar a existência do inconsciente é, assim sendo, escolher estar alheio a certas questões. E tudo bem se a pessoa preferir estar alheia e acreditar em outras formas de tratamento, já que é inclusive natural que o sujeito queira deixar certas questões adormecidas ou até queira ficar em uma zona de conforto, porém tenha em mente que com essa escolha certas questões vão permanecer inacessíveis! Não estou aqui para colocar a soberania da psicanálise frente às outras teorias, mas sim pontuar uma diferença essencial que se dá entre elas. Vai da escolha de cada um e do que cada um também dá conta de bancar para escolher por um tipo de tratamento. Tem tratamentos que possuem efeitos terapêuticos que produzem bem-estar sim, mas retorno a dizer que este não é o intuito da psicanálise, marcando mais uma vez a diferença: a psicanálise não é uma prática do bem-estar e sim do bem-dizer: falando, tendo acesso ao inconsciente e às questões que estavam camufladas na tentativa de tirar o sujeito de repetições que provoca inconscientemente em sua vida. Não é só acolher o sofrimento, é para além disso, é acolher um sujeito que é marcado pelo inconsciente em sua TOTALIDADE!

 

É, além de tudo, uma clínica que não busca normatizar as pessoas em padrões impostos e "ditaduras de felicidade", e sim uma clínica que olha a pessoa no todo, compreende sua história de vida e implica o sujeito em seu próprio processo, ajudando-o a se entender o que inclui suas próprias falhas, faltas e aquilo que é incurável. Aprende a conviver com seus sintomas, entendendo o lugar deles em sua vida, a sustentar e movimentar seus desejos, a conviver com o outro, a suportar o lugar de não-saber e não-ter, entre outras coisas. É uma clínica que acompanha as transformações sociais, entendendo a falta-a-ser do sujeito (pois todos nós temos faltas impossíveis de serem preenchidas), buscando inserir o sujeito no discurso do inconsciente ao invés de bancar uma ilusão de tudo querer resolver que aliena o sujeito de sua própria vida, isto é, sem deixar o indivíduo a mercê da lógica da moda. Temos que dar lugar ao discurso psicanalítico, do saber autêntico, que opera no lugar da verdade. A psicanálise, como disse Lacan em suas conferências em universidades americanas, é a última flor da medicina e, orientada pela contingência, aproxima-se da arte. Daremos-ei lugar à arte do insconsciente: que não permite que o sujeito se iluda e se aliene de si próprio.

 

Essa é uma pergunta que muitas pessoas acabam fazendo. A psicanálise é uma teoria que desde seu nascimento, com Freud, sofreu inúmeros preconceitos, por ser uma teoria que trabalha o inconsciente, algo tão abstrato, impossível de ser medido ou comprovado pela ciência clássica. Sem contar com o estranhamento que causou nas pessoas por abordar temas tão recalcados em nós e que tocam o nosso trauma e, por isso, tanta resistência. O mundo de hoje contribui com mais preconceitos ainda, pois é um mundo imediatista e, assim sendo, as pessoas também são imediatistas: elas querem respostas rápidas que resolvam os seus problemas. Se pensarmos assim, sim, a psicanálise é avessa à essa lógica contemporânea. Mas o que muitas pessoas compram em busca de soluções rápidas são ilusões, porque não tem como tudo saber e tudo responder. A psicanálise não está alheia à isso, portanto é uma prática clínica que realmente demora mais e, então, vai depender do tempo do próprio sujeito: do que ele vai trazendo e do que ele dá conta de falar para ir elaborando pouco a pouco. Lacan introduziu o tempo lógico, que é uma sessão sem tempo determinado introduzindo o elemento da surpresa do corte da sessão, justamente para que os pacientes acelerem seu processo e utilizem o tempo da sessão para falar as coisas mais relevantes ao invés de “encher linguiça”– colocando esse aspecto tão complexo de uma forma bem rasa. Mesmo assim, é raro com tantas opções hoje de tratamento, que possuem ofertas mais sedutoras, as pessoas escolherem bancar o desejo de uma análise, que é um processo por vezes angustiante. Difícil ir na contramão de uma lógica capitalista e de mercado que quer oferecer justamente o que a pessoa demanda, e não só a psicanálise mas psicologia nos ensina justamente que não devemos atender a demanda do paciente, e sim construir outra durante o processo.

Infelizmente têm muitas práticas que se dizem psicanalíticas que contribuem com o preconceito. Importante pontuar que a psicanálise não deve ser tratada como um Dogma, apesar de existirem muitos psicanalistas por aí numa postura completamente enrijecida que, inclusive, contribuem com uma visão prejudicial da psicanálise, provocando uma antipatia e causando um afastamento dos sujeitos. De que adianta essa postura também, se o objetivo é tratar o sujeito do inconsciente, e, como tratá-lo se ele não deseja e não chega ao tratamento? A psicanálise no mundo contemporâneo precisa ser mais flexível quanto às regras e posições, deve-se saber-fazer (savoir-faire) com o que é possível no mundo de hoje. Como disse Lacan, que renuncie à isso, portanto, quem nao alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época! Acabam que alguns profissionais não conseguem alcançar a contemporaneidade e, numa postura enrijecida, acabam por dificultar o aparecimento do desejo pelo tratamento. Importante termos isso em mente enquanto profissionais: de que o desejo precisa circular e, ao mesmo tempo, importante que os pacientes ou futuro pacientes tenham isso em mente: de que a psicanálise não está ultrapassada, apenas alguns profissionais da área. Ou seja,  o que está ultrapassado é uma postura enrijecida da psicanálise! Falo tudo isso não apenas para defender a psicanálise, mas, como falo com meus próprios familiares e pessoas próximas a mim: não quero que você faça análise por mim, mas por você mesmo. É triste ver os preconceitos que a psicanálise sofre afastando tantas pessoas da oportunidade de um tratamento que abre nossos olhos de uma forma tão transformadora como a psicanálise. Acaba que essa postura de defender a psicanálise se torna cotidiana, com tantos leigos falando coisas sem saber por puro preconceito, e, querendo ou não, pagamos o preço pelos profissionais que possuem posturas equivocadas, como em toda área acredito que existam. A psicanálise, portanto, não está ultrapassada: ela é estudada na subjetividade de nosso tempo, continuando a fazer atualizações e reformulações teóricas e clínicas!

 

Que essa reflexão ajude a desmistificar o pensamento de muitos com relação à isso!

04.

A Psicanálise está Ultrapassada?

 

Frases para Refletir

"Sou aonde não penso" (LACAN)

"A voz do inconsciente é sutil, mas ela não descansa até ser ouvida" (FREUD)

"Até você se tornar consciente, o inconsciente vai dirigir sua vida e você irá chamar-lo de destino" (JUNG)

"A psicanálise não é uma prática de relaxamento, adormecimento, harmonização: é uma prática do despertar. A gente deita no divã para não dormir na vida" (PFEIL)

"A psicanálise pode ser tudo, menos complacente com nosso profundo desejo de iludirmos a nós mesmos" (MEZAN)

"O inconsciente é o estranho que habita os espaços mais familiares em mim" (SIMÕES)

 

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